sexta-feira, 11 de julho de 2014

Diários de Gaza: Nosso Quarto Dia de Devastação

Por Najlaa Ataallh, editado por Evelyn Teo, traduzido por Gustavo Dopcke, via The Palestine 
– Como há devastação... como nosso olhos testemunham parados uma cena macabra, dia após dia, no nosso caminho para o trabalho e escola... acostumados a isso
Sim, nós temos os instinto inato de lidar com as forças da natureza, mas o que está na frente dos nossos olhos está além do limite humano. Partes de corpos espalhados em todas as direções... Piscinas de sangue estão misturando, atando um humano ao outro...

Os números e figuras que se espalham através das páginas das redes sociais... Onde podemos preservar e recuperar o valor da dignidade humana...

No quarto dia, repentinamente, você começa a se perguntar como estes dias passaram. Você não pode sentir, nem mesmo contar o tempo. A verdade é: você é jogado para fora do ciclo deste universo. Você é empurrado em um cantinho menor que um ponto, no mapa do mundo.

Depois do quarto dia, o número de mártires passou de 80 e o número de feridos, 600.

Engula sua saliva. Não por medo, pois nunca existirá a ausência do medo, mas pela crença em ter o direito a sentir medo. O medo lhe engole mesmo assim, como outros sentimentos, quando você lê o número de mártires. Procurando por notícias na Internet (quando se tem eletricidade), você começa a dizer: "Este é o Ahmed. Este é o Mahmoud, Khaled, ...". Então você suspira sem acreditar: "Esta é uma mulher. Meu Deus! Todos os membros da família pereceram!". Então você se encontra gritando: "Meu Deus! São todas crianças!".

Você continua procurando sem descanso, impaciente por encontrar sua esperança e, em um minuto, você agradece e louva Deus. A tristeza não atinge seu coração diretamente, por você não conhecer nenhum dos mártires. Você sentirá uma pequena briza no peito. Um momento de paz lhe envolve.

De repente, você ouve um ruído muito alto. A casa está dançando? Não. A casa está tremendo e balançando. Não a julgue. A verdade é que a casa está com medo. Ela está com medo de perder sua longa e enraizada história pela colisão de um míssil. Correndo e se lançando em direção a sua mãe, você diz: "O que está acontecendo!?". Você pára de respirar por segundos, tentando processar o que você acabou de ouvir. Você confirma em choque: "Você disse que Houda e seus pais estão na casa!?".

Você cai de joelhos instantaneamente. Perde o chão sem acreditar. Não sabe se está em choque, com medo ou pânico...

Momentos depois, um som arranha o seu ouvido enquanto outro consola. Pessoas estão tentando espiar pela janela. Olhando para cima, você vê um míssil simples, feito de um punhado de dólares, voando no céu, na esperança de interceptar o míssil que veio do jato F-16. Mantenha seus olhos no chão e escute o que está pairando no seu coração quando o foguete é interceptado pela Cúpula de Ferro.

Caia de joelhos e mantenha seus ouvidos no chão. O som do silêncio é quebrado pela compactação do strike aéreo e fogo cruzado da artilharia, competindo com o som vindo da televisão anunciando: "Haifa foi atingida por um foguete R-160".

Satisfação. Seu coração está dançando enquanto a tristeza cai sobre outros rostos e você diz: "Haifa".

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