Ontem era mais um domingo que eu achei que faria nada, mas eis que recebo uma ligação daquelas que têm toque especial no celular. A notícia era que se eu quisesse, teria um ingresso para assistir o espetáculo Cruel de Deborah Colker no Theatro Municipal.
Claro que larguei tudo que estava fazendo, ou seja, nada, e fui correndo pra lá. Gostei bastante do espetáculo. Acho que foi o maior entretenimento ao qual eu fui exposto nos últimos tempos - em dança, com certeza foi o maior. Os corpos estavam maravilhosos. Acho que a Deborah explorou muito bem isso, pois podia-se perceber que a silhueta dos corpos, principalmente os masculinos, era uma coisa importante e o efeito estético ficou estonteante. A exceção feminina de exploração do corpo ficou por parte da loura, que ás vezes dava uns tapas nas cochas, coisa que, não sei porquê, impressionou muito.
O figurino também estava muito bom: Havia uma menina manejando facas que lembrava um aqueles espetáculos circenses antigos. Havia também uma moça com um vestido que, quando girado, parecia a borda de pétalas de uma flor. A moça loura também usava uma roupa black tie estava muito bonita. No fim, a moça que concluiu o espetáculo tinha uma expressão indescritível de felicidade misturada com determinação que passou por todos os meus sentidos e tocou lá fundo.
A cenografia era outro elemento que estava impecável. O começo com a esfera branca luminosa com uma cobertura que parecia o tecido de um vestido fino. Depois aquele fundo vermelho que deu um tom bem romântico, no bom sentido claro. Gostei também de
uma mesa iluminada e deslizante e de sua exploração com saltos e as facas. Deu até vontade de ir lá saltar a mesa, correr sobre ...
No fim ainda teve o jogo de espelhos com um buraco no meio. Acho que todos bailarinos exploraram muito bem isso e não ficou piegas. Tirando a parte que alguns atrás do espelho imitavam os da frente, pra dar uma impressão de que o reflexo continuava mesmo depois da pessoa sair da frente do espelho e também tinham os meios corpos na frente do espelho que queriam dar a impressão de que era um corpo inteiro quando somado ao reflexo. Achei isso bastante fraco.
Acho que a última gafe foi uma bailarina com apenas uma sapatilha. Estava muito bom no começo pois os passo eram diferentes quando ela se apoiava em um ou outro pé, mas depois de um tempo ela acabou exagerando e dando uma sensação de estar cocha ou sei lá o que. Deu a impressão dela querer mostra que estava dividida entre o clássico e o contemporâneo ou alguma crise estranha de liberdade. Acho que o corpo dessa bailarina estava 100%, mas a expressão e o motivo deixaram muito a desejar.
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Poética
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
-Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Manuel Bandeira
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Cruel de Deborah Colker no Theatro Municipal
domingo, 30 de março de 2008
A não coisa
Não há nada melhor para novas idéias do que a arte. Fui ao teatro no sábado e voltei com idéias inquietantes. O que aconteceu não vem muito ao caso, mas o interessante eu vou contar:
Alya e Victor têm um romance epistolar - de correspondência. Victor cheio de amor e Alya apenas queria alguém que a fizesse sentir amada. As coisas vão ficando cada vez mais vicerais para ele o que a amedronta - era amor demais, chegava à loucura. Então Alya diz a vitor que as cartas não podem mais falar de amor.
Deste momento em diante, o texto reprimido, as frases sobre o cotidiano e as sensações que não amorosas transbordam de amor. É claro pra todos o que está acontecendo. O não falar de amor é o falar de amor mais intenso, gutural, dá frio na garganta e aperto no peito.
A técnica já havia sido explicada por Bertold Brecht, acho.
"É preciso buscar outras formas, não familiares, para mostrar o comum. Porque o processo de percepção deve ser prolongado. É a maneira de experimentar o artístico numa coisa vulgar."
Mas o executar, mostra que superou o seu predecessor. O espectador/leitor se perde dentro da loucura do texto e é tomado pelas mãos para fazer o que o autor (Victor Shklovsky) quiser.
Ele continua de uma forma tão melancólica e solitária e mostra que para alguns entendimentos é preciso viver. Viver o alegre e o triste, mas parece que das lágrimas brotam mais ... eu ia dizer flores, mas achei que ia ficar muito piegas, ai se não tivesse havido nenhuma literatura antes!
A forma melancólica é o interior de um exilado: "Um estrangeiro é aquele cujo amor está em outro lugar"
E o exilado percebe que a Ayla era uma desculpa para o que estava fazendo e o que ele precisava não era dela especificamente, mas sim voltar do exílio.
"Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz." Vladimir Maiakovski
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Naïf
E com gentileza a vil sensualidade sabe mendigar um pedaço de espírito quando se lhe nega um pedaço de carne.
Pois eu olho desconfiado a vossa sensualidade. Tendes olhos demasiado cruéis, e olhais, cheios de desejos, para os que sofrem. Não será simplesmente porque a vossa sensualidade se disfarçou e tomou o nome de compaixão?
Verdadeiramente há os castos por essência são de coração mais meigo, agrada-lhes mais rir, e riem mais que vós
Pois eu olho desconfiado a vossa sensualidade. Tendes olhos demasiado cruéis, e olhais, cheios de desejos, para os que sofrem. Não será simplesmente porque a vossa sensualidade se disfarçou e tomou o nome de compaixão?
Verdadeiramente há os castos por essência são de coração mais meigo, agrada-lhes mais rir, e riem mais que vós
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