terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Perseguição dos reacionários

ESTOU COM VOCÊS, MEUS AMIGOS por Cláudia Castello O julgamento do habeas corpus dos meus amigos é hoje. A Sininho, pelo que fiquei sabendo de um amigo, está passando por momentos de stress que muitos nunca chegaram nem perto de passar. Ela e a Moa, que eu também conheço, estão foragidas por uma palhaçada do juiz Flávio Itabaiana, que é um dos maiores reacionários do Brasil, tipo Lobão, Reinaldo Azevedo, Danilo Gentilli, Boris Casoy, Olavo de Carvalho, essa gente podre que não tem simpatia nenhuma pelo ser humano.
Esse juizinho deu voz de prisão pra Sininho, Moa e Igor, sendo que Igor está no presídio de Bangu há 2 meses. Ele é ativista do Movimento Estudantil (MEPR). Tudo isso porque supostamente desrespeitaram o habeas corpus que foi concedido a eles anteriormente, em um processo inventado, que os condena sem provas. O desrespeito que o juizinho alega é referente a participação em um suposto protesto na Cinelândia que era, na verdade, um evento artístico-cultural relembrando a manifestação dos professores no ano anterior, onde vários educadores foram atacados pela policia. Naquele dia eu também levei umas fortes cacetadas por filmar a violência da polícia.
Esse evento de 2014 foi totalmente pacífico e não ofereceu risco algum. Já a dos professores de setembro de 2013, só teve violência porque um P2 (policial militar infiltrado) jogou uma pedra no vidro de uma loja na Cinelândia, o que justificou, na cabeça da PM, a ação violenta. Eu vi com meus próprios olhos! Vi quando o P2 atirou a pedra e correu, mas a polícia o deixou fujir. Ele não era um manifestante. É assim que o Estado age.
Foi assim também em frente ao Palácio Guanabara, em julho de 2013, quando os próprios P2 jogaram 3 coquetéis molotov nos jornalistas e na polícia. Eu estava em frente ao fogo, quando um dos coquetéis atingiu um policial que estava fazendo parte da barreira que impedia que a manifestação chegasse ao Palácio. Estava a cerca de 5 metros do fogo, do lado de um grupo de Black Blocks quando os coquetéis foram arremessados. Nenhum foi lançado pelos Black Blocs que estavam ali. Eu estava bem no meio deles, fazendo uma entrevista naquele momento. A farsa ficou ainda mais evidente quando filmagens de moradores foram disponibilizadas na internet e a sequencia dos fatos ficou comprovada. Mas a mídia corporativista, cúmplice e criminosa não mostrou isso.
Por ter filmado praticamente todos os protestos desde junho de 2013. Ficou muito fácil identificar algumas peças do tabuleiro e os P2 eram muito fáceis de ser identificados [1].
Por tudo isso, não paro de pensar neles, os 23 ativistas perseguidos políticos. Penso em cada um deles, mas principalmente na Elisa (Sininho). Todos os dias. Não por outro motivo, senão por proximidade e afinidade. Somos profissionais de cinema. Ela produtora, destemida, carismática, ativa. Eu, editora, mais no meu canto, observativa, ativa só no depois, na maneira em que editava os vídeos que filmava.
Mas as duas com o mesmo amor pelo aqui-e-agora do jeito que ele é. Questionando o que não faz sentido. Dando espaço para um real sentido, que alguns chamam de moral, que vem de dentro e do resultado de experiências próprias e/ou compartilhadas, sem pré-conceitos culturais.
Ela foi, dos 23, a pessoa com quem mais tive contato e amizade, por isso sinto demais a injustiça pela qual está passando. Sinto na pele porque sou igual. Sou ela. Sou eles, os 23. Vi a Sininho nas ruas mais de 100 vezes. Mesmo não conversando 100 vezes (sem extrapolar, nos vimos muitas vezes mesmo), sinto que a conheço bem, considerando as vezes que conversamos, interagimos e colaboramos. Me desculpem os críticos opositores mais ferrenhos, mas a terra do nunca não existe e a galera medíocre, que não sabe porque se enfiou nesse meio de manifestações políticas populares e joga merda no ventilador, está mais do que na hora de se posicionar de forma responsável.
As acusações contra a Elisa são de um doente mental apaixonado por ela e de uma ex-namorada do então namorado dela, na época em que as acusações vieram à tona. A Veja foi quem desencadeou toda a ficção e O Globo continuou com uma matéria de capa escandalosa. Daí pra frente foi só ficção atrás de ficção, ladeira abaixo para os ativistas.
São 7 mil paginas de um processo sem fundamento, sem provas. Uma história ridícula de dar vergonha do sistema criminal e da DRCI (Delegacia de Repressão aos Crimes de informática). A Sininho não é nada idiota ou burra e vem de família de militantes políticos, tem isso na veia. Tem ideias próprias e é idealista, romântica, por tudo que vi. Muita merda que a Veja e a Globo inventaram, e que o resto da mídia seguiu por oportunismo comercial, de uma maneira covarde e inescrupulosa, está tentando transformar esses jovens cheios de ideias nobres em monstros para a população.
Nada diferente da época da ditadura. Na verdade, a única diferença é que ainda não colocaram os ativistas no pau de arara. Mas esse juiz Flávio Itabaiana, carrasco do Estado, está pronto para condena-los a anos de prisão. Uma afronta direta e perigosíssima ao direito da livre manifestação e liberdade de expressão.
Um exemplo de controle absurdo do estado é o que aconteceu agora com 230 ativistas no Egito, condenados à prisão perpétua por expressarem o que pensam!
Quando a população se abstrai de tais decisões políticas, por ignorância ou comodismo, acontece o que aconteceu na Alemanha durante o nazismo de Hitler. Quando a sociedade resolveu pensar ou agir de alguma forma, já era tarde.
Amanhã vou estar mal, porque tenho um mal pressentimento de que esse espírito-carcereiro desse Itabaiana vai conseguir sacanear os ativistas. A bancada dos juízes que votam é formada por reacionários também. Apenas o Siro Darlan salva, mas sempre é preciso pelo menos 2 votos de 3, pra definir o que está sendo julgado. O Itabaiana tem reputação de não ter absolvido nenhum caso em toda sua carreira, um verdadeiro carrasco.
Hora de tentar dormir. Precisava desse desabafo. Amanhã é um dia muito importante, que a grande mídia não vai traduzir como de fato é. Espero que meus amigos de visões políticas diversas possam pelo menos pensar no que escrevi hoje.
Muita energia positiva para Igor, Moa, Elisa e todos os perseguidos políticos! [1] https://www.youtube.com/watch?v=6p63miupDx8

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Lapa Presente

Neste sábado, 7 de fevereiro, celebrávamos um aniversário em um bar da Lapa quando policiais da operação Lapa Presente decidiram revistar dois garotos, na calçada próxima. Tendo em vista o histórico da PM carioca, decidi filmar a ação para garantir a segurança dos garotos.

Neste momento o Cabo Freitas, que comandava a operação, decidiu mostrar toda a sua autoridade e mandou eu ficasse de cara contra a parede. Eu perguntei se era suspeito de algo para ser tratado daquele jeito. Outro policial disse apenas que se a imagem que eu fazia com a minha câmera vazasse, eles poderiam saber quem a gerou.

Jogar contra a parede quem filma, especialmente quem trabalha com isso como eu, vai contra as nossas liberdades democráticas duramente conquistadas.

Como o policial não encontrou nada comigo, decidiu atingir a mulher que estava comigo. Pediram não só a identidade como quiseram revistar sua bolsa. Óbvio que ninguém deve entregar a bolsa a uma pessoa dessas, visto que existem muitos relatos de que eles carregam o "kit-flagrante", normalmente um pouco de droga.

Dissemos que abriríamos a bolsa e mostraríamos o que estava dentro, mas sem entregar nas mãos do policial. Este repetiu com voz mais autoritária que queria a bolsa, aumentando a tensão, até que ele disse que estava ordenando. Foi quando o policial puxou a mulher pelo braço, o que deixou os presentes muito indignados.

A tensão foi aumentando até que o Cabo Fritas decidiu que havia sido ofendido pelas filmagens e pelas pessoas que eram jogadas contra a parede e tinham seus pertences revirados.

Eu fui detido apenas para averiguação, como na época da ditadura. Infelizmente, minha companheira irá responder por desacato. Apesar de estarem filmando, os policiais não tinham nenhuma prova da infração.

A Operação Lapa presente tem constrangido centenas de frequentadores do bairro boêmio. Os abusos de autoridade são frequentes. Policiais mostram seu total desprepara para lidar com a população. Querem apenas exercer sua autoridade. Deve ser baixa auto-estima ou coisa pior. Somos, cada vez mais, reféns de um Estado Policial que trata o cidadão como inimigo.

Eu também quero o fim da Polícia Militar!




- Queria agradecer à Dr. Natasha Zadorosny por sair de casa no meio da noite e ir à delegacia nos atender.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Preto no Branco

PRETO NO BRANCO

Não é a primeira vez que Sívia Pilz irrita leitores ao expelir preconceito e raiva sem nem mesmo perceber.
Para demonstrar como essa senhora é uma aberração, vamos analisar um texto seu, "Preto no Branco".
(http://oglobo.globo.com/blogs/silvia-pilz/posts/2014/07/15/preto-no-branco-542612.asp)

"Eu quero voltar pro mundo onde anões eram chamados de anões e não de pessoas verticalmente prejudicadas. De cara, um anão assusta, assim como, de cara, crianças com Síndrome de Down também nos causam certo desconforto."

Quem usa o termo "pessoas verticalmente prejudicadas"? Nunca ouvi, mas acho que foi uma piada. Ih... foi uma piada! Super-preconceituosa, pra começar. Alguém pode até se assustar ao ver um anão, mas isso indica uma aversão ao incomum, mas conhecido como "intolerância". Tão absorvida pelo seu modelo de pessoa, a Sílvia esqueceu que antes de ser anão ou ter Síndrome de Down, as pessoas sentem da mesma forma, têm sonhos, têm pessoas queridas, alegrias, comem, bebem e se divertem. Tantas coisas em comum, mas o cérebro da Sílvia se concentra no diferente.

"Disfarçar o estranhamento é mais vergonhoso que demonstrá-lo. É covardia. Crianças não disfarçam. Perguntam, tentam entender e optam por se aproximar ou não. É tão, mas tão hipócrita essa regra de tratar o diferente com naturalidade que chega a ser uma forma de desprezo invertido."

Por que alguém disfarçaria o estranhamento? Por respeito e pra não deixar o outro desconfortável, talvez. A maioria de nós se importa com o que o outro sente. Talvez a Sílvia desconheça a empatia.

Pra piorar, o argumento de que deveríamos fazer como as crianças é simplesmente ridículo. Crianças são maravilhosas para aprender, trazem alegria, são fofas às vezes, mas podem ser extremamente cruéis e erram com frequência. Hipocrisia é agir como uma criança e usar isso como se fosse algo nobre.

"Eu quero voltar pro mundo onde negros eram chamados de negros, já que chamá-los de afrodescendentes não mudou em nada o preconceito que eles sofrem, sofreram ou sofrerão. Todo mundo quer ser branco e ter olhos claros. Negras alisam cabelos, pais e mães, quando resolvem adotar bebês, vão pro Sul do país. Se bem que os mini-afrodescentes estão em alta. Simbolizam o "eu não tenho preconceito", porque o que acontece em Hollywood, depois de um tempinho, acontece aqui. Parece uma espécie de campanha na qual quem adotar o mais feio garante seu lugar no céu."

Vale lembrar que as palavras tem uma conotação forjada pela cultura. Assim, as palavras podem trazem consigo uma forte carga de preconceito. Ao mesmo tempo, uma senhora branca como a Sílvia nunca sentiu na pele como é ser negra no Brasil, não foi perseguida pelo segurança do shopping, não foi destratada pela polícia, nem deixou de ganhar um emprego pelo racismo de quem poderia contrata-la. Portanto, Sílvia nunca entenderá. Mesmo que tivesse empatia, ela não entenderia a força de palavras preconceituosas.

Por falar em palavras, quem usa "afrodescendente"? Professor de história, talvez. Tenho usado a palavra "negro" quase sempre para discutir preconceito. Se você está reduzindo outras pessoas à cor de sua pele, não se engane, você é preconceituoso.

O ápice do preconceito, entretanto, foi quando ela disse que todos querem ser brancos. Existe muita pressão cultural para parecermos com a Barbie e o Ken, mas isso não demostra a saúde da sociedade e sim sua doença, seus fetiches inventados.

Além disso, nem todos perseguem um padrão de beleza europeu. Estude a história do Movimento Negro, Sílvia, que você verá que muitos acham que black is beutiful!

Ainda neste mesmo parágrafo, Sílvia associou o "negro" a "feio". Feia é você! Por ser preconceituosa e ignorante.

"O colono sofre desse mal. Ele quer ser parecido com quem o colonizou. Deve ser instintivo, primitivo. Como diria um dos meus melhores amigos, se Michael Jackson acordasse no enterro dele, teria uma síncope ao ver tantos pretos ao seu redor. Melhor exemplo de preto que detestava ser preto não há."

Respire fundo! Agora ela confundiu as palavras "colono" com "colonizado". Não esperava muito de alguém que escreve para O Globo, mas entender o sentido das palavras é básico para colunistas. Curso de redação para a Sílvia, já!

Ela completa mencionando Michael Jackson. Não sei se ele odiava ser negro, mas o importante aí é perceber o uso de uma falácia lógica: viés de confirmação. Nesta falácia, usa-se exemplos que confirmem a teoria e ignora-se os contrários. Ela usou o exemplo do Michael que, supostamente, odiava se negro e esqueceu de mencionar as pessoas que amam ser negras.

Na foto, Tommie Smith depois de derrubar a barreira dos 20 segundos nos 200 metros rasos nos Jogos Olímpicos de 1968, ergueu o punho fechado, uma saudação do Black Power.