A CALÚNIA
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Sabe quando você está assistindo um filme e, no meio, percebe que a estória é muito mirabolante? Parece que o autor não soube como conectar os fatos e inventou qualquer coisa. Pois nas últimas semanas, no Rio de Janeiro, a vida tem imitado a arte.
Neste quadro de Botticelli "A Calúnia", um homem inocente é arrastado diante do rei pelas personificações da Calúnia, Malícia, Fraude e Inveja. São seguidos pelo Remorso, a esquerda. Uma velha que vira o rosto para a Verdade. A nudez da Verdade a conecto com o jovem inocente, cujas mãos atadas mostram um apelo a um poder maior. Cochichando no ouvido do rei estão Ignorância e Desconfiança.
Já a calúnia que levou à prisão de dezenas de ativistas inclui corações partidos, traições, planos incendiários, personagens principais e secundários. Seria cômico se isso tudo não implicasse pessoas presas, torturadas e difamadas.
Para entender a profundidade do poço de vergonha que polícia civil, juiz e Ministério Público cavaram, eu listei alguns dos fatos mais interessantes do processo. Ajude a completar a lista nos comentários!
Malícia:
- Escuta em advogada: proibido pela lei nº 11.767/08 [1], fere o Estado Democrático de Direito, uma vez que ataca o direito de defesa.
- Sigilo do processo: o processo não pôde ser apreciado pelo advogado de defesa, nem pelo desembargador responsável por avaliar o pedido de habeas corpus. Entretanto, a Rede Goebbles teve acesso a todo o processo, incluindo escutas. Delegado e jornalistas poderias responder pelos crimes, se houvesse justiça.
- Crime inexistente: os manifestantes foram presos por planejar cometer crimes, conhecido como "crime de pensamento". Ou seja, o delegado "previu" que crimes ocorressem, por isso prendeu todo mundo.
- Sininho foi presa em Porto Alegre, o que indica o conluio entre o Secretário Estadual de Segurança Beltrame e o Ministro da Justiça Cardozo. Pezão (PMDB) e Dilma (PT) se mostram unidos para reprimir.
Inveja e Remorso:
As principais testemunhas de acusação são pessoas que tinham razões pessoais para prejudicar alguns manifestantes.
- Clayton: rapaz vulnerável, com visíveis problemas mentais, confessou ser apaixonado por Sininho e se arrepender das acusações;
- Felipe Bráz: foi expulso do movimento por atitudes machistas. Em entrevista[2], chamou o Desembargador Siro Darlan de "viado" e mostrou estar muito feliz com a prisão da Sininho. Além disso, responde à pergunta da jornalista com "Pô, você deve ser muito gatinha, mas por que eu falaria isso pra você?".
- Anne Josephine: companheira de Game Over, que foi traída quando este namorou com Sininho.
Ignorância:
- Inquérito coloca o filósofo Bakunin, morto em 1876, como potencial suspeito.
- Em um depoimento, Sininho foi acusada de carregar 3 galões com 10 litros de gasolina cada um. Essa mulher é forte mesmo!
Fraude:
- Escutas mencionavam canetas, livros, drinques e pisca-pisca. Estes foram interpretados pela polícia como sendo rojões e coquetéis molotov.
- Arma apreendida tinha licença e não era dos acusados, mas do pai de uma das presas. Ao chegar na delegacia, a arma foi incluída como prova contra todos, pois estava com a licença vencida.
- Outras provas incluem: saca-rolhas, grampeador, fita adesiva, caixa de papelão, revistas, jornais, bandeiras, camisetas pretas e mouse;
- Ligação entre Sininho e o pai, onde ela diz que não queria ir para Minas Gerais, pois "o negócio lá estava pegando fogo". Ou seja, ela foi incriminada por estar com receio de ser incriminada. Além disso, o verbo "bombar" e "patriotada nojenta" também incriminam os subversivos.
- Comprar quentinhas para manifestantes também está proibido.
- Outra acusação foi a de a advogada Eloisa Samy realizar reuniões em casa.
- Os mandados de prisão indicavam crimes contra a propriedade intelectual, como possuir software pirata [3]. Só ao chegar na delegacia, os presos descobriram que estavam sendo indiciados por formação de quadrilha armada.
- Ministério Público leu o processo de 2.000 páginas e indiciou manifestantes em apenas 2 horas.
Calúnia
- A Rede Goebbles foi a grande articuladora que, em conluio com delegado e juiz, transformou a atividade política em crime.
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Texto: Gustavo Dopcke | Coletivo Mariachi
Imagem: Calunnia (Botticelli)
[1] - http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Lei/L11767.htm
[2] - http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-07-24/ex-lider-da-fip-e-a-principal-testemunha-em-inquerito-contra-ativistas.html
[3] - http://youtu.be/SIf4HD7ppJk
terça-feira, 29 de julho de 2014
sábado, 12 de julho de 2014
Queridos amigos, fiquem tranquilos pois eu não fui preso hoje
Todos manifestantes estão correndo risco de prisão neste momento.
Hoje pela manhã foram expedidos 29 mandos, que resultaram na prisão de 36 pessoas.
19 destes, tinham seus nomes no mandado do juiz o juiz Flávio Itabaiana de Oliveira Nicolau, da 27ª Vara Criminal da Capital. Outros 16 dormiam nas casas dos manifestantes, e 1 é o pai de uma das ativistas que tinha uma arma de fogo com licença vencida em casa.
As prisões dos 19 acusados foram determinadas pelo artigo 288 do Código Penal (Organização Criminosa), pois o juiz entendeu que existem evidências de que os indiciados se organizam para provocar manifestações violentas. Este artigo é o mais usado para colocar os ativistas políticos na prisão, pois abre margem para juízes e delegados interpretarem da forma que quiser, sem medo de punição.
Este juiz Nicolau (lembra alguém?), mesmo que comprovada a arbitrariedade do mandado, ficará protegido pela estrutura do sistema e falta de clareza na lei. Ou seja, nosso sistema permite criar presos políticos sem que os responsáveis sejam punidos.
Como sonhar em uma sociedade que criminaliza a livre expressão?
Todas estas prisões são arbitrárias, sendo que as provas encontradas consistem de máscaras de gás, panfletos, jornais, camisetas pretas (anarquistas), etc. Alguém deveria avisar o delegado responsável pela operação que a ditadura já acabou e que não se pode perseguir alguém por suas idéias políticas expressas no material encontrado. Assim, delegado e juiz deveriam utilizar outra desculpa legal para as prisões.
Ainda, foi apreendida uma arma do pai de um militante com licença vencida, que está sendo usada para incriminar os manifestantes. A militante, no caso, tem 16 anos. Seu pai também foi preso.
Além destes, há mais 16 detidos por ação cautelar, que estavam dormindo na casa dos ativistas presos. Se seu amigo é ativista político, cuidado! Não durma na casa dele>
Frente a esta grotesca afronta a nossa Constituição e a dignidade humana, peço que o você, meu amigo, se posicione publicamente para defender as liberdades democráticas. Todos manifestantes estão correndo risco de prisão neste momento.
Manifeste-se!
Ligue ou envie mensagem para o seu vereador, deputado, senador, presidente da associação de bairro, sindicato, grêmio estudantil, etc.
O povo brasileiro não pode permitir mais presos políticos! Ditadura nunca mais!
Hoje pela manhã foram expedidos 29 mandos, que resultaram na prisão de 36 pessoas.
19 destes, tinham seus nomes no mandado do juiz o juiz Flávio Itabaiana de Oliveira Nicolau, da 27ª Vara Criminal da Capital. Outros 16 dormiam nas casas dos manifestantes, e 1 é o pai de uma das ativistas que tinha uma arma de fogo com licença vencida em casa.
As prisões dos 19 acusados foram determinadas pelo artigo 288 do Código Penal (Organização Criminosa), pois o juiz entendeu que existem evidências de que os indiciados se organizam para provocar manifestações violentas. Este artigo é o mais usado para colocar os ativistas políticos na prisão, pois abre margem para juízes e delegados interpretarem da forma que quiser, sem medo de punição.
Este juiz Nicolau (lembra alguém?), mesmo que comprovada a arbitrariedade do mandado, ficará protegido pela estrutura do sistema e falta de clareza na lei. Ou seja, nosso sistema permite criar presos políticos sem que os responsáveis sejam punidos.
Como sonhar em uma sociedade que criminaliza a livre expressão?
Todas estas prisões são arbitrárias, sendo que as provas encontradas consistem de máscaras de gás, panfletos, jornais, camisetas pretas (anarquistas), etc. Alguém deveria avisar o delegado responsável pela operação que a ditadura já acabou e que não se pode perseguir alguém por suas idéias políticas expressas no material encontrado. Assim, delegado e juiz deveriam utilizar outra desculpa legal para as prisões.
Ainda, foi apreendida uma arma do pai de um militante com licença vencida, que está sendo usada para incriminar os manifestantes. A militante, no caso, tem 16 anos. Seu pai também foi preso.
Além destes, há mais 16 detidos por ação cautelar, que estavam dormindo na casa dos ativistas presos. Se seu amigo é ativista político, cuidado! Não durma na casa dele>
Frente a esta grotesca afronta a nossa Constituição e a dignidade humana, peço que o você, meu amigo, se posicione publicamente para defender as liberdades democráticas. Todos manifestantes estão correndo risco de prisão neste momento.
Manifeste-se!
Ligue ou envie mensagem para o seu vereador, deputado, senador, presidente da associação de bairro, sindicato, grêmio estudantil, etc.
O povo brasileiro não pode permitir mais presos políticos! Ditadura nunca mais!
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Diários de Gaza: Nosso Quarto Dia de Devastação
Por Najlaa Ataallh, editado por Evelyn Teo, traduzido por Gustavo Dopcke, via The Palestine
– Como há devastação... como nosso olhos testemunham parados uma cena macabra, dia após dia, no nosso caminho para o trabalho e escola... acostumados a isso
Sim, nós temos os instinto inato de lidar com as forças da natureza, mas o que está na frente dos nossos olhos está além do limite humano. Partes de corpos espalhados em todas as direções... Piscinas de sangue estão misturando, atando um humano ao outro...
Os números e figuras que se espalham através das páginas das redes sociais... Onde podemos preservar e recuperar o valor da dignidade humana...
No quarto dia, repentinamente, você começa a se perguntar como estes dias passaram. Você não pode sentir, nem mesmo contar o tempo. A verdade é: você é jogado para fora do ciclo deste universo. Você é empurrado em um cantinho menor que um ponto, no mapa do mundo.
Depois do quarto dia, o número de mártires passou de 80 e o número de feridos, 600.
Engula sua saliva. Não por medo, pois nunca existirá a ausência do medo, mas pela crença em ter o direito a sentir medo. O medo lhe engole mesmo assim, como outros sentimentos, quando você lê o número de mártires. Procurando por notícias na Internet (quando se tem eletricidade), você começa a dizer: "Este é o Ahmed. Este é o Mahmoud, Khaled, ...". Então você suspira sem acreditar: "Esta é uma mulher. Meu Deus! Todos os membros da família pereceram!". Então você se encontra gritando: "Meu Deus! São todas crianças!".
Engula sua saliva. Não por medo, pois nunca existirá a ausência do medo, mas pela crença em ter o direito a sentir medo. O medo lhe engole mesmo assim, como outros sentimentos, quando você lê o número de mártires. Procurando por notícias na Internet (quando se tem eletricidade), você começa a dizer: "Este é o Ahmed. Este é o Mahmoud, Khaled, ...". Então você suspira sem acreditar: "Esta é uma mulher. Meu Deus! Todos os membros da família pereceram!". Então você se encontra gritando: "Meu Deus! São todas crianças!".
Você continua procurando sem descanso, impaciente por encontrar sua esperança e, em um minuto, você agradece e louva Deus. A tristeza não atinge seu coração diretamente, por você não conhecer nenhum dos mártires. Você sentirá uma pequena briza no peito. Um momento de paz lhe envolve.
De repente, você ouve um ruído muito alto. A casa está dançando? Não. A casa está tremendo e balançando. Não a julgue. A verdade é que a casa está com medo. Ela está com medo de perder sua longa e enraizada história pela colisão de um míssil. Correndo e se lançando em direção a sua mãe, você diz: "O que está acontecendo!?". Você pára de respirar por segundos, tentando processar o que você acabou de ouvir. Você confirma em choque: "Você disse que Houda e seus pais estão na casa!?".
Você cai de joelhos instantaneamente. Perde o chão sem acreditar. Não sabe se está em choque, com medo ou pânico...
De repente, você ouve um ruído muito alto. A casa está dançando? Não. A casa está tremendo e balançando. Não a julgue. A verdade é que a casa está com medo. Ela está com medo de perder sua longa e enraizada história pela colisão de um míssil. Correndo e se lançando em direção a sua mãe, você diz: "O que está acontecendo!?". Você pára de respirar por segundos, tentando processar o que você acabou de ouvir. Você confirma em choque: "Você disse que Houda e seus pais estão na casa!?".
Você cai de joelhos instantaneamente. Perde o chão sem acreditar. Não sabe se está em choque, com medo ou pânico...
Momentos depois, um som arranha o seu ouvido enquanto outro consola. Pessoas estão tentando espiar pela janela. Olhando para cima, você vê um míssil simples, feito de um punhado de dólares, voando no céu, na esperança de interceptar o míssil que veio do jato F-16. Mantenha seus olhos no chão e escute o que está pairando no seu coração quando o foguete é interceptado pela Cúpula de Ferro.
Caia de joelhos e mantenha seus ouvidos no chão. O som do silêncio é quebrado pela compactação do strike aéreo e fogo cruzado da artilharia, competindo com o som vindo da televisão anunciando: "Haifa foi atingida por um foguete R-160".
Caia de joelhos e mantenha seus ouvidos no chão. O som do silêncio é quebrado pela compactação do strike aéreo e fogo cruzado da artilharia, competindo com o som vindo da televisão anunciando: "Haifa foi atingida por um foguete R-160".
Satisfação. Seu coração está dançando enquanto a tristeza cai sobre outros rostos e você diz: "Haifa".
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