terça-feira, 29 de julho de 2014

A Calúnia

A CALÚNIA

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Sabe quando você está assistindo um filme e, no meio, percebe que a estória é muito mirabolante? Parece que o autor não soube como conectar os fatos e inventou qualquer coisa. Pois nas últimas semanas, no Rio de Janeiro, a vida tem imitado a arte.



Neste quadro de Botticelli "A Calúnia", um homem inocente é arrastado diante do rei pelas personificações da Calúnia, Malícia, Fraude e Inveja. São seguidos pelo Remorso, a esquerda. Uma velha que vira o rosto para a Verdade. A nudez da Verdade a conecto com o jovem inocente, cujas mãos atadas mostram um apelo a um poder maior. Cochichando no ouvido do rei estão Ignorância e Desconfiança.

Já a calúnia que levou à prisão de dezenas de ativistas inclui corações partidos, traições, planos incendiários, personagens principais e secundários. Seria cômico se isso tudo não implicasse pessoas presas, torturadas e difamadas.

Para entender a profundidade do poço de vergonha que polícia civil, juiz e Ministério Público cavaram, eu listei alguns dos fatos mais interessantes do processo. Ajude a completar a lista nos comentários!

Malícia:
- Escuta em advogada: proibido pela lei nº 11.767/08 [1], fere o Estado Democrático de Direito, uma vez que ataca o direito de defesa.
- Sigilo do processo: o processo não pôde ser apreciado pelo advogado de defesa, nem pelo desembargador responsável por avaliar o pedido de habeas corpus. Entretanto, a Rede Goebbles teve acesso a todo o processo, incluindo escutas. Delegado e jornalistas poderias responder pelos crimes, se houvesse justiça.
- Crime inexistente: os manifestantes foram presos por planejar cometer crimes, conhecido como "crime de pensamento". Ou seja, o delegado "previu" que crimes ocorressem, por isso prendeu todo mundo.
- Sininho foi presa em Porto Alegre, o que indica o conluio entre o Secretário Estadual de Segurança Beltrame e o Ministro da Justiça Cardozo. Pezão (PMDB) e Dilma (PT) se mostram unidos para reprimir.

Inveja e Remorso:
As principais testemunhas de acusação são pessoas que tinham razões pessoais para prejudicar alguns manifestantes.
- Clayton: rapaz vulnerável, com visíveis problemas mentais, confessou ser apaixonado por Sininho e se arrepender das acusações;
- Felipe Bráz: foi expulso do movimento por atitudes machistas. Em entrevista[2], chamou o Desembargador Siro Darlan de "viado" e mostrou estar muito feliz com a prisão da Sininho. Além disso, responde à pergunta da jornalista com "Pô, você deve ser muito gatinha, mas por que eu falaria isso pra você?".
- Anne Josephine: companheira de Game Over, que foi traída quando este namorou com Sininho.

Ignorância:
- Inquérito coloca o filósofo Bakunin, morto em 1876, como potencial suspeito.
- Em um depoimento, Sininho foi acusada de carregar 3 galões com 10 litros de gasolina cada um. Essa mulher é forte mesmo!

Fraude:
- Escutas mencionavam canetas, livros, drinques e pisca-pisca. Estes foram interpretados pela polícia como sendo rojões e coquetéis molotov.
- Arma apreendida tinha licença e não era dos acusados, mas do pai de uma das presas. Ao chegar na delegacia, a arma foi incluída como prova contra todos, pois estava com a licença vencida.
- Outras provas incluem: saca-rolhas, grampeador, fita adesiva, caixa de papelão, revistas, jornais, bandeiras, camisetas pretas e mouse;
- Ligação entre Sininho e o pai, onde ela diz que não queria ir para Minas Gerais, pois "o negócio lá estava pegando fogo". Ou seja, ela foi incriminada por estar com receio de ser incriminada. Além disso, o verbo "bombar" e "patriotada nojenta" também incriminam os subversivos.
- Comprar quentinhas para manifestantes também está proibido.
- Outra acusação foi a de a advogada Eloisa Samy realizar reuniões em casa.
- Os mandados de prisão indicavam crimes contra a propriedade intelectual, como possuir software pirata [3]. Só ao chegar na delegacia, os presos descobriram que estavam sendo indiciados por formação de quadrilha armada.
- Ministério Público leu o processo de 2.000 páginas e indiciou manifestantes em apenas 2 horas.

Calúnia
- A Rede Goebbles foi a grande articuladora que, em conluio com delegado e juiz, transformou a atividade política em crime.

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Texto: Gustavo Dopcke | Coletivo Mariachi
Imagem: Calunnia (Botticelli)

[1] - http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Lei/L11767.htm
[2] - http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-07-24/ex-lider-da-fip-e-a-principal-testemunha-em-inquerito-contra-ativistas.html
[3] - http://youtu.be/SIf4HD7ppJk

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