quinta-feira, 26 de junho de 2014

A Foto, o Fato e o Raxa

Ontem, uma criança morreu na favela. Na verdade, quem a matou foi a polícia, segundo a mãe do pequeno[1]. Luiz era uma garoto risonho e deveria iluminar com alegria o lar. O pequenino só morreu porque o Estado brasileiro decidiu que as comunidades carentes são zonas de guerra e lá podem usar armas de grosso calibre indiscriminadamente. Ao decidir pela Guerra ao Pobre, quer dizer Guerra às Drogas apenas nos bairros pobres, o Estado de Direito foi suspenso e, com ele, o respeito à vida do cidadão.

Simplificando, o fato é que o Estado matou uma criança de 3 anos ao tentar controlar pessoas pobres.

Atrelado a este Fato está A Foto. Que foi tirada no hospital e mostra o que restou de um corpinho. Depois, foi postada em uma página qualquer e logo se espalhou. Chegando na redação do nosso Coletivo, tivemos horas de discussões sobre se e como a foto seria publicada. Nesse processo, pensamos em tratamentos que amenizassem o impacto da imagem, o que fez que eu a visse muitas vezes. Assim, a imagem colou na minha retina e está tatuada no meu cérebro.

A indignação elevou a tensão do corpo e da mente. Ontem eu experimentei os limites disso ao ponto de ficar extremamente fatigado, mas sem conseguir dormir.

Muitas vezes, o mídia-ativismo passa por transmitir essa indignação para o público com o objetivo de colocar energia em prol da transformação da sociedade. Um fato como esse tem causado pouca comoção entre na população anestesiada. Assim, a foto teria um efeito mais chocante. Por outro lado, explorar a dor de uma família é indecente e impregnar a mente dos seguidores da página com essa imagem é brutal.

Por fim, a imagem foi publicana neste canal, mas tomado o cuidado de borrar a violência.

O resultado prático disso foi gerar uma incrível discussão dentro da página do Coletivo. Alguns assinantes se posicionaram contra. Bradavam "insensíveis", "parecem a Rede Globo" e "falta de ética". Enquanto outros apoiavam "discussão corajosa", "temos que mostrar" e "a realidade é dura mesmo".

Vale perceber outro Fato: os apoiadores (da publicação da foto) já estavam convencidos da necessidade de lutar por uma sociedade mais justa. Eram pessoas que já sabiam que a guerra não é contra as drogas, mas contra os pobres. Para estes, a publicação foi "chover no molhado",  esclarecer o esclarecido. Já os que se indignaram eram companheiros de luta, alguns de longa data. Foram até chamados de "coxinhas" e "recalcados", as mulheres, de "patricinhas". Uma reprodução stalinista do "desqualifique o argumentador e não o argumento".

Assim, a publicação dA Foto criou uma divisão entre os companheiros mais e menos resistentes à imagem. A sociedade acordou ainda injusta, não trouxemos companheiros para a nossa causa, mas os que lutavam por melhorias acordaram mais divididos.

E quanto aos culpados pela morte da criança? Ah... deixa eles pra lá. Estão a vibrar com a nossa briga.

[1] - http://extra.globo.com/casos-de-policia/crianca-foi-baleada-em-costa-barros-enquanto-dormia-morte-gerou-protesto-violento-13012470.html

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