segunda-feira, 11 de maio de 2015

Cardiff - surpresas boas e ruins

Entrei na segunda semana, morando na capital do País de Gales.  Algumas surpresas boas e outras nem tão maneiras me arrebataram. A parte boa ou a ruim primeiro? Vou começar com a ruim.

O Brasil exporta muitas coisas para o mundo, desde Tropa de Elite, futebol, samba, mulheres objetificadas, passando por Michel Teló até chegar em drogas muito mais pesadas!
Por esses dias me deparei com um "centro de ajuda" de uma tal Universal Church of the Kingdom of God. Quando traduzi mentalmente, fiquei estarrecido: Igreja Universal do Reino de Deus. É isso mesmo, camarada. Estamos exportando a palavra do Senhor - do Senhor Edir Macedo.


Pra aumentar o clima de trevas aqui na cidade do Dragão Vermelho, próximo ao castelo de Cardiff, tem muitos bichos de pedra, com olhos assustadores.



O Zé Colmeia acima nem é tão assustador. Ele até que ficou bonitinho com estes olhos que se encontram no infinito.

Mudando um pouco de assunto, estou ficando em um Bed & Breakfast que fica em um dos bairros mais pobres do centro: Splott. Neste bairro, moram muitos estrangeiros (árabes de muitos países, indianos, europeus do leste, etc.) e populações empobrecidas locais.

Foi engraçado vir morar no gueto de Cardiff e ouvir as várias histórias do que me pode acontecer aqui. Garanto que este lugar é mais seguro que qualquer rua do Leblon. Foi triste constatar que os britânicos, aparentemente, também têm medo de pobre. 


Aqui no gueto, também tem surpresas interessantes. Além do belo graffiti acima, vi colada uma bandeira antifascista, mas em alemão. Estranho, não? O que um antifascista alemão estaria fazendo aqui? Será que ele precisa de ajuda?


Antes de falar da cereja-do-bolo, vale lembrar que os pubs aqui são incríveis. Há uma variedade muito grande de cervejas em todos os lugares que fui. As cervejas do tipo ale, locais, são incríveis. Entretanto, as importadas também representam bem. Bebi, no domingo, uma cerveja incrível dos EUA. Só não comente com ninguém, por favor. 


Pra terminar, apresentarei as fotos mais incríveis destes dias. Contextualizando: pra não ficar em forma roliça de tanto beber cerveja, decidi fazer corridas de uma hora pela cidade. Escolhi um ponto próximo, chamado Roath, onde tem um parque, lago e área desportiva. O lugar é extremamente bem cuidado, com campos para jogar rugby, o esporte nacional. Ideal para eu esticar minhas perninhas e queimar as calorias lupulosas.


Além dos gramados, os jardins são belíssimos. Encontrei este jardim de tulipas em frente ao lago e tive que parar a corrida pra registrar.


Mais à frente, encontrei esta fera, capaz de arrancar pedaços de quem se aproxima. Apesar de lindíssimos, os cisnes são animais perigosos, especialmente agora na época dos filhotes. 


No caminho de volta, me deparei com mais surpresas da primavera. Estas árvores floridas são incríveis!


Pra terminar, uma plantinha verdinha e simpática =D


Agora vou dormir, que tenho que trabalhar muito nesta semana.

domingo, 3 de maio de 2015

Spicy Saturday

O que fazer no sábado, em um lugar novo, onde você não conhece ninguém?

Eu decidi explorar a cidade. Fui primeiro aos lugares onde eu penso em alugar um apartamento.
Saí por volta do meio-dia, já com fome e fui em busca de um bom restaurante. Peguei meu norte pela City Road e encontrei um restaurante chinês na Crwys Road. Pedi o especial da casa que consiste em macarrão com frango, camarão e legumes. O garçom perguntou quanta pimenta eu queria, ao que respondi "spicy".

Quando comecei a comer o prato fiquei muito vermelho, chegando ao ponto de lacrimejar. Apesar de o prato estar delicioso, foi um desafio terminá-lo. Enxuguei as lágrimas e comi tudo com bravura!

Depois do almoço, continuei meu passeio pela Catheys Terrace, chegando a um jardim da Universidade, lindo e verde-claro, de começo da primavera.



Continuei pela Avenida Rei Eduard VII, onde me deparei com estas árvores incrivelmente floridas. 



A beleza do lugar era incrível. Foi quando eu pensava que a melhor parte já tinha passado, que a parte realmente bonita apareceu. Entrei o Jardim Alexandra, com tulipas e outras flores incríveis. Veja isso:






Depois de curtir muito a primavera galesa, fui em direção a outros bairros onde poderia morar, passando pelo Museu Nacional de Cardiff



Pelo Castelo de Cardiff. Decidi não entrar desta vez, já que a entrada custa £9 (R$40), pois tenho certeza que entrarei no castelo quando meus amigos me visitarem.


No caminho pra Riverside, passei pela Cowbridge, sobre o Rio Taff, onde as cores da primavera continuavam impressionantes.



Depois destas fotos, começou a chover muito e decidi entrar em um café. A pausa foi à toa, pois continuou a chover durante todo o dia.

Cheguei no Bad & Breakfast para jantar. Lá, encontrei um novo hóspede o Giacomo, um italiano que começou a trabalhar com croupier em um cassino da cidade. E eu que sempre pensei ter uma profissão interessante.

Na cozinha do B&B, ficamos eu, Giacomo e Rossi (a anfitriã) bebendo duas garrafas de vinho tinto. Fui dormir cedo, pois no domingo tinha um jogo de futebol com o pessoal do instituto.



quinta-feira, 30 de abril de 2015

Segundo dia, carpe diem!

Hoje foi um dia mais atarefado em Cardiff. O primeiro desafio foi encontrar a School of Physics and Astronomy. O campus está espalhado pela cidade e o prédio onde eu trabalharei fica muito longe do edifício principal, onde eu havia ido.

Errar de prédio foi até divertido, pois pude passear e apreciar a paisagem da primavera. As árvores estão com uma bela cor verde clara, com as folhas que acabaram de crescer. Além disso, o céu azulado criou uma paisagem inesperada para a "Ilha Cinza", como alguns amigos chamam a Grã-Bretanha.



Uma coisa que está sendo difícil de lidar é a mão britânica, com os carros à esquerda. Todas as vezes que tenho que atravessar uma rua, olho para os dois lados. Às vezes, esqueço disso e olho apenas para o lado de onde não vêm carros, tornando a experiência levemente perigosa.



Felizmente não fui atropelado e consegui realizar todas as atividades do dia. Fui em vários escritórios da Universidade. Um para conseguir a minha carteirinha, outro pra fazerem uma cópia do meu passaporte. No meu instituto, os desafios foram mais tranquilos. Chave da sala e colocar internet no meu laptop. No fim do dia, ainda passei na loja de celulares e comprei um chip. Tenho um número de telefone agora! =D

Todas estas tarefas me deixaram um pouco cansado. Entretanto, as novidades são o maior combustível pra aproveitar a vida. Cheguei em casa e, mesmo com o corpo pesado, decidi correr em um parque aqui próximo, Splott Park.


Pra terminar ainda melhor, cheguei no Bad & Breakfast que estou ficando e descobri que a minha anfitriã me esperava com um jantar. Foi um delicioso macarrão com cogumelos e pimentão vermelho, cobertos com queijo derretido.

Carpe diem!



terça-feira, 3 de março de 2015

Mancha Azul

Mancha Azul


O coração desta cidade
está pintado com tristeza.
Nós respiramos em desespero
e um tipo anestesiado de loucura.


que se contorce nas nossas veias,
e grita, e chora,
sangrando fundo e fundo.
Nós temos veneno em nossos olhos.

Piscamos para encontrar negros
e contorcidos fantasmas do passado.
Assistimos nossas palavras morrer
pois nada pode durar,

e nossos pensamentos estão caindo
nas ruas azuis da cidade,
apodrecendo enquanto
cada coração partido bate

para os tambores martelados
nas nossas mentes retorcidas,
de guerras escarlates-cicatrizadas
e a paz que não encontramos

depois de tempestades furiosas
e tempos turbulentos,
o silêncio chama nos muros
gritando vingança por crimes

na dor ecoante
de nossa dor coletiva,
presa na mancha
louca azul da cidade

- Ariveria

http://allpoetry.com/poem/11856389-Blue-Stain-by-Ariveria

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Perseguição dos reacionários

ESTOU COM VOCÊS, MEUS AMIGOS por Cláudia Castello O julgamento do habeas corpus dos meus amigos é hoje. A Sininho, pelo que fiquei sabendo de um amigo, está passando por momentos de stress que muitos nunca chegaram nem perto de passar. Ela e a Moa, que eu também conheço, estão foragidas por uma palhaçada do juiz Flávio Itabaiana, que é um dos maiores reacionários do Brasil, tipo Lobão, Reinaldo Azevedo, Danilo Gentilli, Boris Casoy, Olavo de Carvalho, essa gente podre que não tem simpatia nenhuma pelo ser humano.
Esse juizinho deu voz de prisão pra Sininho, Moa e Igor, sendo que Igor está no presídio de Bangu há 2 meses. Ele é ativista do Movimento Estudantil (MEPR). Tudo isso porque supostamente desrespeitaram o habeas corpus que foi concedido a eles anteriormente, em um processo inventado, que os condena sem provas. O desrespeito que o juizinho alega é referente a participação em um suposto protesto na Cinelândia que era, na verdade, um evento artístico-cultural relembrando a manifestação dos professores no ano anterior, onde vários educadores foram atacados pela policia. Naquele dia eu também levei umas fortes cacetadas por filmar a violência da polícia.
Esse evento de 2014 foi totalmente pacífico e não ofereceu risco algum. Já a dos professores de setembro de 2013, só teve violência porque um P2 (policial militar infiltrado) jogou uma pedra no vidro de uma loja na Cinelândia, o que justificou, na cabeça da PM, a ação violenta. Eu vi com meus próprios olhos! Vi quando o P2 atirou a pedra e correu, mas a polícia o deixou fujir. Ele não era um manifestante. É assim que o Estado age.
Foi assim também em frente ao Palácio Guanabara, em julho de 2013, quando os próprios P2 jogaram 3 coquetéis molotov nos jornalistas e na polícia. Eu estava em frente ao fogo, quando um dos coquetéis atingiu um policial que estava fazendo parte da barreira que impedia que a manifestação chegasse ao Palácio. Estava a cerca de 5 metros do fogo, do lado de um grupo de Black Blocks quando os coquetéis foram arremessados. Nenhum foi lançado pelos Black Blocs que estavam ali. Eu estava bem no meio deles, fazendo uma entrevista naquele momento. A farsa ficou ainda mais evidente quando filmagens de moradores foram disponibilizadas na internet e a sequencia dos fatos ficou comprovada. Mas a mídia corporativista, cúmplice e criminosa não mostrou isso.
Por ter filmado praticamente todos os protestos desde junho de 2013. Ficou muito fácil identificar algumas peças do tabuleiro e os P2 eram muito fáceis de ser identificados [1].
Por tudo isso, não paro de pensar neles, os 23 ativistas perseguidos políticos. Penso em cada um deles, mas principalmente na Elisa (Sininho). Todos os dias. Não por outro motivo, senão por proximidade e afinidade. Somos profissionais de cinema. Ela produtora, destemida, carismática, ativa. Eu, editora, mais no meu canto, observativa, ativa só no depois, na maneira em que editava os vídeos que filmava.
Mas as duas com o mesmo amor pelo aqui-e-agora do jeito que ele é. Questionando o que não faz sentido. Dando espaço para um real sentido, que alguns chamam de moral, que vem de dentro e do resultado de experiências próprias e/ou compartilhadas, sem pré-conceitos culturais.
Ela foi, dos 23, a pessoa com quem mais tive contato e amizade, por isso sinto demais a injustiça pela qual está passando. Sinto na pele porque sou igual. Sou ela. Sou eles, os 23. Vi a Sininho nas ruas mais de 100 vezes. Mesmo não conversando 100 vezes (sem extrapolar, nos vimos muitas vezes mesmo), sinto que a conheço bem, considerando as vezes que conversamos, interagimos e colaboramos. Me desculpem os críticos opositores mais ferrenhos, mas a terra do nunca não existe e a galera medíocre, que não sabe porque se enfiou nesse meio de manifestações políticas populares e joga merda no ventilador, está mais do que na hora de se posicionar de forma responsável.
As acusações contra a Elisa são de um doente mental apaixonado por ela e de uma ex-namorada do então namorado dela, na época em que as acusações vieram à tona. A Veja foi quem desencadeou toda a ficção e O Globo continuou com uma matéria de capa escandalosa. Daí pra frente foi só ficção atrás de ficção, ladeira abaixo para os ativistas.
São 7 mil paginas de um processo sem fundamento, sem provas. Uma história ridícula de dar vergonha do sistema criminal e da DRCI (Delegacia de Repressão aos Crimes de informática). A Sininho não é nada idiota ou burra e vem de família de militantes políticos, tem isso na veia. Tem ideias próprias e é idealista, romântica, por tudo que vi. Muita merda que a Veja e a Globo inventaram, e que o resto da mídia seguiu por oportunismo comercial, de uma maneira covarde e inescrupulosa, está tentando transformar esses jovens cheios de ideias nobres em monstros para a população.
Nada diferente da época da ditadura. Na verdade, a única diferença é que ainda não colocaram os ativistas no pau de arara. Mas esse juiz Flávio Itabaiana, carrasco do Estado, está pronto para condena-los a anos de prisão. Uma afronta direta e perigosíssima ao direito da livre manifestação e liberdade de expressão.
Um exemplo de controle absurdo do estado é o que aconteceu agora com 230 ativistas no Egito, condenados à prisão perpétua por expressarem o que pensam!
Quando a população se abstrai de tais decisões políticas, por ignorância ou comodismo, acontece o que aconteceu na Alemanha durante o nazismo de Hitler. Quando a sociedade resolveu pensar ou agir de alguma forma, já era tarde.
Amanhã vou estar mal, porque tenho um mal pressentimento de que esse espírito-carcereiro desse Itabaiana vai conseguir sacanear os ativistas. A bancada dos juízes que votam é formada por reacionários também. Apenas o Siro Darlan salva, mas sempre é preciso pelo menos 2 votos de 3, pra definir o que está sendo julgado. O Itabaiana tem reputação de não ter absolvido nenhum caso em toda sua carreira, um verdadeiro carrasco.
Hora de tentar dormir. Precisava desse desabafo. Amanhã é um dia muito importante, que a grande mídia não vai traduzir como de fato é. Espero que meus amigos de visões políticas diversas possam pelo menos pensar no que escrevi hoje.
Muita energia positiva para Igor, Moa, Elisa e todos os perseguidos políticos! [1] https://www.youtube.com/watch?v=6p63miupDx8

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Lapa Presente

Neste sábado, 7 de fevereiro, celebrávamos um aniversário em um bar da Lapa quando policiais da operação Lapa Presente decidiram revistar dois garotos, na calçada próxima. Tendo em vista o histórico da PM carioca, decidi filmar a ação para garantir a segurança dos garotos.

Neste momento o Cabo Freitas, que comandava a operação, decidiu mostrar toda a sua autoridade e mandou eu ficasse de cara contra a parede. Eu perguntei se era suspeito de algo para ser tratado daquele jeito. Outro policial disse apenas que se a imagem que eu fazia com a minha câmera vazasse, eles poderiam saber quem a gerou.

Jogar contra a parede quem filma, especialmente quem trabalha com isso como eu, vai contra as nossas liberdades democráticas duramente conquistadas.

Como o policial não encontrou nada comigo, decidiu atingir a mulher que estava comigo. Pediram não só a identidade como quiseram revistar sua bolsa. Óbvio que ninguém deve entregar a bolsa a uma pessoa dessas, visto que existem muitos relatos de que eles carregam o "kit-flagrante", normalmente um pouco de droga.

Dissemos que abriríamos a bolsa e mostraríamos o que estava dentro, mas sem entregar nas mãos do policial. Este repetiu com voz mais autoritária que queria a bolsa, aumentando a tensão, até que ele disse que estava ordenando. Foi quando o policial puxou a mulher pelo braço, o que deixou os presentes muito indignados.

A tensão foi aumentando até que o Cabo Fritas decidiu que havia sido ofendido pelas filmagens e pelas pessoas que eram jogadas contra a parede e tinham seus pertences revirados.

Eu fui detido apenas para averiguação, como na época da ditadura. Infelizmente, minha companheira irá responder por desacato. Apesar de estarem filmando, os policiais não tinham nenhuma prova da infração.

A Operação Lapa presente tem constrangido centenas de frequentadores do bairro boêmio. Os abusos de autoridade são frequentes. Policiais mostram seu total desprepara para lidar com a população. Querem apenas exercer sua autoridade. Deve ser baixa auto-estima ou coisa pior. Somos, cada vez mais, reféns de um Estado Policial que trata o cidadão como inimigo.

Eu também quero o fim da Polícia Militar!




- Queria agradecer à Dr. Natasha Zadorosny por sair de casa no meio da noite e ir à delegacia nos atender.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Preto no Branco

PRETO NO BRANCO

Não é a primeira vez que Sívia Pilz irrita leitores ao expelir preconceito e raiva sem nem mesmo perceber.
Para demonstrar como essa senhora é uma aberração, vamos analisar um texto seu, "Preto no Branco".
(http://oglobo.globo.com/blogs/silvia-pilz/posts/2014/07/15/preto-no-branco-542612.asp)

"Eu quero voltar pro mundo onde anões eram chamados de anões e não de pessoas verticalmente prejudicadas. De cara, um anão assusta, assim como, de cara, crianças com Síndrome de Down também nos causam certo desconforto."

Quem usa o termo "pessoas verticalmente prejudicadas"? Nunca ouvi, mas acho que foi uma piada. Ih... foi uma piada! Super-preconceituosa, pra começar. Alguém pode até se assustar ao ver um anão, mas isso indica uma aversão ao incomum, mas conhecido como "intolerância". Tão absorvida pelo seu modelo de pessoa, a Sílvia esqueceu que antes de ser anão ou ter Síndrome de Down, as pessoas sentem da mesma forma, têm sonhos, têm pessoas queridas, alegrias, comem, bebem e se divertem. Tantas coisas em comum, mas o cérebro da Sílvia se concentra no diferente.

"Disfarçar o estranhamento é mais vergonhoso que demonstrá-lo. É covardia. Crianças não disfarçam. Perguntam, tentam entender e optam por se aproximar ou não. É tão, mas tão hipócrita essa regra de tratar o diferente com naturalidade que chega a ser uma forma de desprezo invertido."

Por que alguém disfarçaria o estranhamento? Por respeito e pra não deixar o outro desconfortável, talvez. A maioria de nós se importa com o que o outro sente. Talvez a Sílvia desconheça a empatia.

Pra piorar, o argumento de que deveríamos fazer como as crianças é simplesmente ridículo. Crianças são maravilhosas para aprender, trazem alegria, são fofas às vezes, mas podem ser extremamente cruéis e erram com frequência. Hipocrisia é agir como uma criança e usar isso como se fosse algo nobre.

"Eu quero voltar pro mundo onde negros eram chamados de negros, já que chamá-los de afrodescendentes não mudou em nada o preconceito que eles sofrem, sofreram ou sofrerão. Todo mundo quer ser branco e ter olhos claros. Negras alisam cabelos, pais e mães, quando resolvem adotar bebês, vão pro Sul do país. Se bem que os mini-afrodescentes estão em alta. Simbolizam o "eu não tenho preconceito", porque o que acontece em Hollywood, depois de um tempinho, acontece aqui. Parece uma espécie de campanha na qual quem adotar o mais feio garante seu lugar no céu."

Vale lembrar que as palavras tem uma conotação forjada pela cultura. Assim, as palavras podem trazem consigo uma forte carga de preconceito. Ao mesmo tempo, uma senhora branca como a Sílvia nunca sentiu na pele como é ser negra no Brasil, não foi perseguida pelo segurança do shopping, não foi destratada pela polícia, nem deixou de ganhar um emprego pelo racismo de quem poderia contrata-la. Portanto, Sílvia nunca entenderá. Mesmo que tivesse empatia, ela não entenderia a força de palavras preconceituosas.

Por falar em palavras, quem usa "afrodescendente"? Professor de história, talvez. Tenho usado a palavra "negro" quase sempre para discutir preconceito. Se você está reduzindo outras pessoas à cor de sua pele, não se engane, você é preconceituoso.

O ápice do preconceito, entretanto, foi quando ela disse que todos querem ser brancos. Existe muita pressão cultural para parecermos com a Barbie e o Ken, mas isso não demostra a saúde da sociedade e sim sua doença, seus fetiches inventados.

Além disso, nem todos perseguem um padrão de beleza europeu. Estude a história do Movimento Negro, Sílvia, que você verá que muitos acham que black is beutiful!

Ainda neste mesmo parágrafo, Sílvia associou o "negro" a "feio". Feia é você! Por ser preconceituosa e ignorante.

"O colono sofre desse mal. Ele quer ser parecido com quem o colonizou. Deve ser instintivo, primitivo. Como diria um dos meus melhores amigos, se Michael Jackson acordasse no enterro dele, teria uma síncope ao ver tantos pretos ao seu redor. Melhor exemplo de preto que detestava ser preto não há."

Respire fundo! Agora ela confundiu as palavras "colono" com "colonizado". Não esperava muito de alguém que escreve para O Globo, mas entender o sentido das palavras é básico para colunistas. Curso de redação para a Sílvia, já!

Ela completa mencionando Michael Jackson. Não sei se ele odiava ser negro, mas o importante aí é perceber o uso de uma falácia lógica: viés de confirmação. Nesta falácia, usa-se exemplos que confirmem a teoria e ignora-se os contrários. Ela usou o exemplo do Michael que, supostamente, odiava se negro e esqueceu de mencionar as pessoas que amam ser negras.

Na foto, Tommie Smith depois de derrubar a barreira dos 20 segundos nos 200 metros rasos nos Jogos Olímpicos de 1968, ergueu o punho fechado, uma saudação do Black Power.