terça-feira, 19 de maio de 2015

Muito além dos 23 presos políticos

Há muito tempo, defensores de causas sociais são perseguidos, criminalizados processados, e mortos. Há muito mais tempo, isso acontece com a classe mais pobre, que sempre foi e ainda é criminalizada e morta, por ser pobre. Quando digo muito tempo, é há muito tempo mesmo
A Operação Firewall, um investigação da Polícia Civil, que resultou em um processo contra 23 ativistas no Rio de Janeiro, dos quais alguns podem ser condenados, é um grande exemplo do quão sujo o Estado e seus aliados podem jogar com quem enfrenta suas redes de mortais injustiças.
Entretanto, esse caso não é novidade, pois o processo de criminalização de ativistas e movimentos sociais se encaixa de forma perfeita no contexto político, não apenas no momento atual, mas antigo e recorrente, com a tentativa de deslegitimar as lutas sociais.
Em todos os lugares do Brasil, pessoas são perseguidas por questionar e confrontar o que nos é apresentado como modelo político, questionamentos esses que não são poucos:
O sistema prisional e os agentes de segurança pública que, com aval do estado, formam grupos de extermínio e milícias, juntos à omissão do Estado diante do aniquilamento de tribos indígenas e camponeses, negação da explícita existência e ação de latifundiários, criminalização da pobreza, entre outros.
O caso dos 23 ativistas que estão sendo processados, se tornou notório porque a mídia corporativa quis. Ela pretendia acabar com o movimento formado no Rio de Janeiro que, apesar recente, é muito combativo na luta pra que o povo se levante contra a política de benefício dos interesses do poder econômico. Porém, infelizmente, esse não é o único caso. O número de presos políticos vai muito além de 23, e ainda há os mortos e os desaparecimentos forçados, que chamo de desaparecidos políticos da democracia.
Não há como falar em mortos e desaparecidos políticos da democracia sem lembrar de algumas execuções, e chacinas feitas e acobertadas pelo Estado: • Janeiro de 2009, Manoel Mattos foi assassinado. Manoel era defensor de Direitos Humanos, advogado e lutava denunciando grupos de extermínio na divisa entre os estados de Pernambuco e Paraíba.
• Em agosto de 2006, Izabel Borges foi acusada pela polícia do estado do Espírito Santo de chefiar uma organização criminosa que agiria no sistema prisional do Estado. Izabel era Coordenadora da Pastoral Carcerária do Espírito Santo e as denúncias contra ela se tornaram públicas através do noticiário da região e do Jornal Nacional da Rede Globo.
• Chacina da Candelária: na noite de 23 de julho de 1993, 8 jovens sem-teto foram assassinados por policiais militares.
• Chacina da Baixada: 31 de março de 2005, quando 28 pessoas foram mortas, aleatoriamente, pelas ruas da Baixada Fluminense, por Policiais Militares.
• Chacina de Vigário Geral: como ficou conhecido o episódio em que 21 moradores da favela de Vigário Geral foram executados por 50 homens integrantes de um grupo de extermínio, dentro de suas casas, que foram arrombadas na madrugada do dia 29 de agosto de 1993. Esse grupo de extermínio era formado por Policiais.
• Chacina de Acari: 11 pessoas, na maioria negros e moradores da Favela de Acari, foram sequestrados pelo grupo de extermínio Cavalos Voadores, em 26 de Julho de 1990. O grupo de extermínio Cavalos Voadores era formado por policiais e o Coronel reformado e ex-deputado estadual Emir Larangeira, foi acusado pelo Ministério Público de ser o chefe do bando.
Os corpos dos jovens até hoje não foram encontrados.
Essas pessoas são mortas e desaparecidas em nome da política de limpeza social. Os responsáveis pelas mortes, geralmente, são agentes do Estado, que depois se tornam parlamentares, como Emir Larangeira, que também teria planejado a morte de Edmeia, uma das mães dos desaparecidos de Acari, em seu gabinete na ALERJ. Na época, Edmeia estava empenhada na luta por justiça no caso do assassinato covarde de seus filhos.
Esses, e outros inúmeros casos, mostram a evidente omissão do Estado brasileiro diante de tais acontecimentos. O Estado tem suas mãos sujas de tais crimes, que vão muito além dos 23.
Qualquer pessoa que se levante para lutar contra esse Estado falsamente democrático, passará a viver em situação cruciante, de ameaças, criminalizações, perseguições, agressões, tendo até familiares atingindo. Devemos explanar TODOS os casos, que TODOS se tornem notórios.
No papel da criminalização não há exclusividade. Presos políticos no campo e na cidade, na favela e no asfalto, liberdade a todos, pois os números vão muito além dos 23. Texto: Buba Aguiar

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