quarta-feira, 20 de maio de 2015

DENTRE TODAS AS POSSIBILIDADES, UMA FACADA

Estou já há 3 semanas fora do Brasil e as notícias que tenho da terrinha são quase sempre terríveis. Fiquei especialmente chocado com o homem esfaqueado e morto. Seu corpo ficou ali, para quem quisesse ver. Uma morte por motivo aparentemente tão fútil. Pra piorar, os criminosos são sempre os mesmos. Quando reclamamos, vem algum chato defender o assassino.

"Ele tem família pra criar.", dizem. Fico me perguntado: e a família da vítima? A sociedade atônita não sabe o que fazer para conter esta verdadeira guerra. Quem sabe uma lei diferente colocaria estes assassinos atrás das grades para mofar.

A mãe do homem morto chorou por quase um dia inteiro em frente ao corpo do filho esfaqueado. Neste caso específico, um policial do BOPE matou o mototaxista Rodrigo Marques Lourenço, de 29 anos, que deixou um filho. Entretanto, casos como estes são muito comuns. Note que a Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ) mata duas pessoas por dia (números oficiais [1]). Rodrigo não entrou nesta estatística, pois o policial não assumiu o crime.

Após o enterro, que ocorreu no dia 16 de maio, mais de 100 mototaxistas foram até o Palácio Guanabara, para pedira justiça. Lá, os manifestantes fizeram um minuto de silêncio frente aos coletes que os colegas usavam pra trabalhar.

Mais uma vez, a morte da população trabalhadora do morro não chocou a sociedade. Imagino que não se identificaram com o mototaxista. Foram se identificar apenas com o ciclista da Lagoa, que era médico. No sub-consciente da classe média carioca, a vida do médico vale muito mais do que a do mototaxista. Sem perceber, tomam o lado das elites.

A guerra de classes já foi declarada há muito tempo. De um lado, os ricos, com a mídia, o governo e a polícia. Do outro, a população pobre revoltada com tanta injustiça, senso morta diariamente pela polícia. No meio disso, uma classe média que acredita em uma suposta violência urbana. A mídia os faz crer que o problema são poderosos menores infratores e os que vendem drogas a varejo na favela.

Violência urbana é a guerra de classes, as facadas de São Carlos ou da Lagoa são resultados do mesmo conflito. Enquanto não entendermos isso, não decidiremos conscientemente de que lado estamos.


Texto: Gustavo Dopcke | Coletivo Mariachi

“Swann havia encarado todas as possibilidades. A realidade é, pois, alguma coisa que não tem nenhuma relação com as possibilidade, da mesma forma que uma facada que recebemos nada tem a ver com o leve movimento das nuvens acima da nossa cabeça.”
― Proust

[1] - http://www.isp.rj.gov.br/

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