Resposta ao texto Astrologia e ceticismo de Alexey Dodsworth
http://www.constelar.com.br/constelar/120_junho08/ceticismo.php----------
O texto está em cor preta e a resposta em azul.
O ceticismo, longe de ser uma abordagem nefasta, é fundamental para qualquer saber. Contudo, nem todos que pensam ser céticos merecem essa classificação, do ponto de vista filosófico: os que negam a validade da Astrologia estão neste caso, já que trocam a dúvida salutar pelo dogmatismo puro e simples.
Negar a validade da astrologia pode até ser dogmatismo, mas é um dogma (Michaelis: Fundamento ou pontos capitais de qualquer sistema ou doutrina) baseado na ciência. Explico:
Toda tese em ciência tem um espaço onde ela é válida. Por exemplo a relatividade geral vale para todos os corpos, mas não tem sentido nenhum aplicá-la, da forma que ela foi formulada, às ciências humanas.
Outra base da ciência são os experimentos. São eles que validam as teorias. Como não se consegue fabricar equipamentos de medidas exatamente precisos, temos que conviver com os erros experimentais. O que leva a que a teoria tenha um grau de certeza na sua validade, por exemplo de 99% ou 95%. E cada experimento individual permite este tipo de análise. Além do grau de precisão, ainda temos a quantidade de experimentos, pois o erro na medida nem sempre é constante, então consideramos, geralmente muitos objetos para o experimento. Os objetos do experimento seguem, em geral, uma distribuição estatística e esta ciência é exata! Ela nos dá o grau de certeza que temos em relação às nossas afirmações (teorias).
Eu, por exemplo, no fim do meu mestrado, vou afirmar, com um grau de certeza, que determinadas estrelas formam um grupo que se movimenta à mesma velocidade e têm uma mesma origem. Como eu pesquisei apenas 30 estrelas, meu grau de certeza deve ficar em torno de uns 80% para cada estrela e isso não convence a maioria dos cientistas, na verdade eles ficariam muito felizes em provar que eu estou errado! =)
Voltando ao assunto de negar a astrologia. A ciência é baseada nesses dogmas, no conhecimento que temos hj a respeito da matemática e estatística (ciências exatas) e a respeito das leis físicas, que não são tão exatas quanto afirmamos. Só foi possível perceber que as leis de Newton não valiam para todos os corpos quando medimos a velocidade da luz, que é de 300.000 km/s! Por isso ela foi usada por 350 anos.
Esses são os dogmas da ciência: acreditar na experimentação, nos testes e de que uma teoria tem que prever algo que possa ser testado(afirmar que ETs são verdes não pode ser testado, pois não temos como observá-los), etc.
Isso exclui da ciência, portanto, muitas afirmações, que ficam na filosofia, onde vc não precisa provar sua teoria com experimentos, apenas com a lógica.
Se os astros influenciam no nosso caráter, nas nossas preferências e na nossa constituição psicológica é complicado de se provar cientificamente, mas é possível. Os psicólogos têm métodos bons para afirmar se uma pessoa é ansiosa, obstinada, paciente, esperta, esquecida, etc.. A astronomia consegue determinar com precisão a posição de muitos corpos celestes, principalmente dos que nós enxergamos. Então basta cruzar os dados. Céu no momento preciso em que o sujeito nasceu e a configuração do céu naquele momento, ou na noite.
A minha pergunta é:
Aguém (um sujeito sério e isso é importante) já fez isso? O sujeito conhecia estatística? Conhecia o método científico para mostrar isso?
Até onde eu sei, isso NÃO aconteceu. Ninguém conseguiu provar, com algum grau de certeza, que existe relação entre posição dos astros e psicologia humana.
O sujeito sério é importante, pois existe um problema grave, mesmo entre os cientistas, que muitos não sabem escolher a sua amostra de objetos a ser estudada. É como eu estudar distribuição de renda do carioca, mas só entrevistas pessoas que entram na loja da Rolex e eu vou chegar na conclusão que a renda média do carioca é de R$50.000,00 por mês.
A ciência pode não funcionar para alguns casos? Pode não ser o melhor método de estudar um fenômeno? Sim e sim.
Mas pense no computador que está na sua frente. A Física dele é das décadas de 20, 30 e 50, a engenharia começou em 70 e não parou de evoluir, tudo graças à ciência.
Hoje sabemos muito sobre o comportamento humano, suas relações sociais e psicológicas e, para isso, tivemos que inventar toda uma filosofia das ciências humanas e, concomitante, as ciências humanas. Hoje sabemos os melhores métodos (com um grau de ceteza e espaço aplicável) para tratar os mais graves problemas da humanidade. Não que os apliquemos =P
Eu sei que ciência humana sem políticas para todos os seres humanos não é eficiente, por isso eu acredito que os dois juntos, apenas, podem mudar a humanidade pra melhor, mas isso é outra discussão...
Alguém propôs um método de se estudar astrologia? Este método é científico ou eu tenho que acreditar sem ver? Este método tem uma filosofia para prová-lo logicamente? e cientificamente?
Até onde eu sei a resposta é NÃO.
Então eu me pergunto: Por que estudar uma conhecimento com poucas bases, que não existem provas contundentes de que funciona em detrimento de outras coisas muito mais importantes e bem estabelecidadas?
Sempre estarei aberto a futuras mostras que esses conhecimentos têm utilidade, mas até lá, eu deixo aos corajosos que queiram arriscar.
Via de regra, é bastante comum encontrarmos astrólogos e céticos ocupando lados opostos do grande campo de futebol do saber. Imaginemos uma bola metafórica que representa o discurso: o astrólogo chuta pra cá, o cético chuta para lá, e volta e meia alguém marca um gol. Às vezes é o time cético que domina a bola e demonstra, numa determinada pesquisa publicada numa muito conhecida revista científica, que a astrologia não funciona.
"muito conhecida revista científica" - Agora ofendeu! As revistas "muito conhecidas" são seríssimas. Para publicar algo lá, um cientista muito conceituado e experiente avaliará a sua pesquisa e depois de inúmeras correções e muito $$$ que custou para a população brasileira, este artigo será publicado.
Eu terei passado 2 anos pesquisando, depois de uma formação de 4 anos e meio, para submeter um artigo desses e não tenho certeza que ele será aceito! Na verdade a probabilidade é alta, pois o meu trabalho está bom =)
Minha bolsa custou uns 1200/mês que em dois anos dá 28.800 reais. Mais o custo anual de um aluno de pós-graduação no observatório que é de uns 10.000. Mais 20.000. Mais o custo de publicação, uns US$150 = R$350,00
Ou seja, este artigo, mais a minha tese e a minha formação custaram pra vc e ou outros 189.999.999 brasileiros uns R$39.000,00!
Será que a revista é conhecida (popular) ou ela é SÉRIA?
Abaixo um artigo do Prof. Rory Coker da University of Texas em Austin, Estados Unidos, em cooperação com a Austin Society to Oppose Pseudoscience.
http://www.ceticismoaberto.com/ceticismo/astrologia.htm
Abaixo uma brincadeira mostrando que não é a astronomia popular, mas sim a astrologia.
http://www.gluon.com.br/blog/2009/01/12/astrologia-versus-astronomia/
Em seguida, o time astrológico chuta e acerta, demonstrando em outra pesquisa que a astrologia funciona. Eventualmente (como seria de se esperar), alguém marca um gol contra por pura inabilidade em lidar com a bola. Jogadores afoitos tendem a meter os pés pelas mãos. E jogadores atrapalhados existem em ambos os times, vale salientar. E há também os competentes: atacantes brilhantes e goleiros especialistas em não deixar a bola entrar, valendo-se de uma retórica irresistível.
Lembremo-nos: a bola é o discurso, o discurso é a bola. Enfiar a bola no gol, na metáfora que ora utilizo, significa tornar meus argumentos mais convincentes e ser ovacionado por uma platéia de torcedores. Entretanto, vejam só: a bola nunca fica para sempre dentro do gol. Após um tempinho lá dentro, após alguns segundos de comemoração, eis que a redonda é lançada no campo novamente, sendo chutada de um lado para o outro.
Por isso mesmo que a bola é o discurso, e não a Verdade. A Verdade não entra no jogo, seja porque ela não existe, seja porque é inapreensível (não dá pra bater bola com ela). Surpreendente? Não é. Surpreendente, isso sim, é perceber que um dos times está usando a camisa errada. Um cético que pretende fazer da bola não um discurso, mas a Verdade, pensa ser cético, e se engana. Ele quer manter a bola no gol a qualquer custo, quer encerrar o jogo.
Está certo que uma verdade não existe, o que existe são escolhas. Você pode escolher entre o seu racional ou o que vc sente. Meu racional e meu sentimento diz que a ciência é maneira e funciona bem pra um monte de coisa, mas como diz Nietzsche "A loucura exerga razão onde ela não existe"
Este é o primeiro problema: o que caracteriza um cético? O que se diz do ceticismo em jornais, revistas, no senso comum, não tem nada a ver com o uso aplicado deste termo em filosofia.
É preciso, assim sendo, discernir o ceticismo coloquial do ceticismo filosófico. Ambos têm pouco (ou nada) em comum, a não ser a utilização da mesma terminologia. Modernamente, dizer-se cético significa mais ou menos o seguinte: “eu acredito apenas naquilo que a ciência me comprova. Acredito nos meus sentidos. Acredito na realidade empírica.”
Todavia, a palavra ceticismo (do grego skepsis, “investigação” ou “questionamento”) pouco tem a ver com esta supervalorização da ciência. O ceticismo filosófico, nascido com o grego Pirro de Elis [1] após um período de contato com os gimnosofistas indianos, é uma corrente do pensamento que reconhece a Verdade como sendo inapreensível. Reconhece todas as verdades estabelecidas como sendo mero discurso e, portanto, não estabelece nada como sendo um modelo de Verdade. O discurso cético filosófico é um constante exercício da dúvida, jamais uma afirmação de que a Verdade está aqui ou ali, seja na ciência, seja em qualquer outro lugar.
[1] Pirro de Elis (imagem à esquerda) viveu entre 365 a.C. e 270 a.C. Foi contemporâneo de Alexandre, o Grande, de cujas expedições participou.
O oposto do discurso cético é o discurso tético, ou dogmático. Se eu afirmo que Deus existe, sou um dogmático. No senso comum, se afirmo que Deus não existe, sou um cético, mas esta idéia está absolutamente incorreta. Afirmar que Deus não existe é um discurso tão tético ou dogmático quanto afirmar sua existência. O mesmo vale para a astrologia. Afirmar a funcionalidade da astrologia pode até ser um discurso dogmático, entretanto afirmar a sua infuncionalidade também é. Creditar à ciência um status ontológico de Depositório da Verdade é simplesmente retirar um Absoluto do lugar e inserir outro no contexto.
Aqui está o pulo do gato! O sujeito diz que não existe verdade - certo. Depois diz que afirmar que Deus não existe é dogmático - mais ou menos.
>Eu não tenho ceteza que deus exista. A minha dúvida é tão grande que eu vivo toda a minha vida sem fazer nada por ele - afinal já sou grandinho pra ter amigos imaginários =)
Como essa pergunta é muito séria para as pessoas, eu respondo sempre que eu ACHO que não, pra não ofender ninguém. Mas eu levo toda a minha vida como se ele não existisse de fato. Já para a astologia, a minha certeza é até maior, se é que isso existe, e dificilmente eu ofenderei alguém, então eu vou responder que ela NÃO FUNCIONA, mesmo sabendo que eu não consigo provar isso e que existe a possibilidade dela funcionar. Então os céticos podem afirmar sim que deus não existe, astrologia não funciona, sem se preocupar sempre em tomar o cuidado de dizer que é POSSÍVEL que eles existam/funcionem, mas improvável. Então temos que tomar cuidado com a retórica deste artigo e não dos "céticos vs astrólogos".
O cético filosófico, diferente de seu equivalente coloquial, recomenda a prática da epoché, termo grego que significa literalmente “suspensão do juízo”. Se a Verdade é inapreensível, devemos evitar emitir juízos como valores de Verdade. Isso não me impede de chutar a bola para onde eu quiser, defendendo um ponto de vista – mas eu, como jogador, sei que a bola é apenas um discurso, e não a Verdade. Eu, cético, posso até duvidar da existência de Deus, ou da astrologia, ou de extraterrestres, mas duvidar é uma postura totalmente diversa (muito embora muita gente não note a diferença) de uma outra postura, que afirma qualquer coisa. Afirmar existência ou inexistência é afirmar, e um verdadeiro cético filosófico não afirma. Duvida. E enquanto há dúvida, há jogo, e a bola pode rolar. E é divertido.
Divertido pra quem cara-pálida? As pseudo-ciências ganham muuuuito dinheiro das pessoas e já se tornou um ploblema de charlatanismo. Então cuidado com toda essa diversão que alguém pode ficar com menos $$$ ou perder muito tempo da sua vida.
Tudo isso considerado, é preciso lembrar ao leigo que supostos céticos como aqueles que corriqueiramente afirmam que a astrologia não funciona não são, filosoficamente falando, céticos. Eles afirmam uma Verdade (a Verdade da ciência; a Verdade de que a astrologia é um charlatanismo) e, portanto, seu discurso é dogmático.
Tente vender um remédio dizendo que é bom para ansiedade sem provar que funciona pra ver onde vc vai parar. Mas como conselhos sobre a vida e religião+psicoterapia ainda não são considerados problemas de saúde pública, ninguém paga por esse tipo de atividade "rentável e não comprovada" (para ser educado).
Dito isso, é possível ser astrólogo e cético? No sentido original, filosófico, da palavra “ceticismo”, sim. Diante da pergunta “por que a astrologia funciona?”, a resposta honesta que costumo dar é justamente a resposta cética: “não faço a menor idéia”. Na medida em que a utilizo, reconheço nela uma funcionalidade, mas não atribuo a ela um dogmático valor divino, mas um valor de discurso. A astrologia, até onde a vejo, é um discurso, e não uma Verdade. É possível fazer discursos funcionais com astrologia chinesa, védica, maia, com o tarot ou até mesmo com palitos de fósforo (citando um oráculo perfeitamente funcional, criado por meu colega astrólogo, João Acuio).
Existem várias respostas para esta aparente funcionalidade da astrologia/pseudo-ciências:
"A astrologia recai em uma ilusão de pensamento chamada validação pessoal. Isto depende da natureza seletiva da memória. Se acreditamos que algo é de certo modo, tendemos a lembrar os eventos que o apóiam, e esquecer daqueles que não. O resultado é uma sensação crescente de convicção. Lembramos da parte da narrativa em que nos encaixamos e esquecemos da parte que não. Influenciar as pessoas dessa maneira é chamado de leitura fria, e há uma literatura psicológica considerável sobre o assunto."
Entra aí, é claro, uma série de problemas filosóficos difíceis de solucionar, mas deliciosos de debater: a astrologia é metafísica? Se sim, ela é realista (os planetas realmente têm uma natureza simbólica independente do homem) ou nominalista (os planetas têm tão somente a natureza que o homem lhes concedeu)? Este estado de dúvida é um estado cético altamente salutar, que proporciona visões mais amplas em torno de um mesmo assunto.
O ceticismo, longe de ser uma abordagem nefasta, é fundamental para os saberes – qualquer saber, diga-se de passagem. Sem ceticismo, há apenas dogma e temas que se tornam indiscutíveis, como se fossem uma religião. O ceticismo só não é adequado quando se fala em fé, pois fé é da ordem do sentimento, e não da razão: fé se tem ou não se tem. É inútil discutir crenças. E a astrologia não é uma crença, mas algo que se experimenta. O “cético coloquial”, ao vaticinar que a astrologia não existe sem jamais tê-la experimentado apenas pensa que é cético. Mas é um dogmático como qualquer outro.
Experimentado. Palavra bacana, mas o que ele quiz dizer foi "dar uma chance à fé na astronomia". Eu gosto da ciência porque você pode acreditar nos experimentos dos outros cientistas, já que o método é conhecido e padronizado. Então se eu ler um artigo de outro cientista mostrando que ele nunca encontrou funcinalidade na astrologia, eu, em geral, acredito, tenho uma fé baseada em longos momentos de reflexão sobre a validade da ciência, a sua aplicabilidade nestes casos, o método utilizado pelo cientista, mesmo sem jamais ter feito o experimento.
A astrologia está repleta de problemas filosóficos de difícil solução. Lamentavelmente, pouco tempo tem sido dedicado a uma filosofia da astrologia. Existe uma filosofia do direito, uma filosofia da ciência, uma filosofia da arte, mas pouco se faz em prol de uma filosofia da astrologia. Há ainda os que torcem o nariz para qualquer filosofia, e nem desconfiam que até este torcer de nariz faz parte, por si mesmo, de uma forma de filosofia.
Esta carência talvez se dê ao fato de o discurso astrológico ter-se desenvolvido a partir de bases dogmáticas, enquanto uma boa dose de ceticismo (filosófico) permitiria um novo olhar para a mesma paisagem. Os dogmas não são poucos, e os defensores destes discursos possuem veemência quase religiosa, não faltando obviamente gurus que não aceitam ser questionados. E os dogmas são tão contraditórios entre si que não é de se espantar que a astrologia não possua um corpo consistente – ela é cheia de buracos, e são justamente destes buracos que os jogadores do time oposto se aproveitam para realizar dribles e alguns gols, aqui e ali.
Esses buracos ainda são muitos que a astrologia parece um grande buracão. Quando resolverem os buracos, avisem que eu volto a dar uma olhada, até lá eu fico estudando coisas mais úteis, bem fundamentadas, que funcionam, etc.. Sem querer ofender, é só que eu acho.
Ah... o melhor do texto do cara é a foto do gatinho te olhando.
Um comentário:
A foto do gatinho ;) com certeza!
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